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- A (des)igualdade de oportunidades dos artistas portugueses no acesso à rádio: o caso da Antena 1, Rádio Comercial e RFMPublication . Gonçalves, Luís Miguel Almeida; Sousa, Jorge PedroA presente tese propõe uma análise sistemática sobre a (des)igualdade de oportunidades dos artistas portugueses que cantam em português no acesso à difusão radiofónica nas três principais rádios generalistas de cobertura nacional — RFM, Rádio Comercial e Antena 1 — num contexto mediático marcado pela consolidação das quotas de música portuguesa, pela convergência digital e pela crescente influência de processos algorítmicos na curadoria musical. Partindo de um enquadramento histórico, político, tecnológico e regulatório da rádio em Portugal, desde a sua génese até à atual fase de plataformização, o estudo demonstra que o sistema radiofónico português se estrutura como um campo altamente estratificado, onde a consagração prévia, as lógicas comerciais, a minimização do risco e o peso das estruturas industriais determinam de forma decisiva o acesso ao espaço de antena. O trabalho articula três eixos empíricos — análise sistemática de playlists, um inquérito nacional a 250 músicos emergentes e consagrados e 40 entrevistas semiestruturadas a atores de elite — integrando-os num quadro teórico que combina a teoria da indústria cultural, os modelos de gatekeeping, a teoria do campo e do capital simbólico e os contributos sobre curadoria algorítmica, permitindo compreender a rádio como instância híbrida de mediação, simultaneamente editorial, institucional e tecnossocial. Os resultados da análise das playlists revelam um ecossistema dual: as rádios comerciais concentram a programação num núcleo restrito de artistas internacionais com forte notoriedade, com repetição intensiva e incumprimento sistemático das quotas legais de música portuguesa; a Antena 1 cumpre e ultrapassa as quotas, assegurando maior diversidade estilística, territorial e geracional, ainda que a sua influência seja limitada por níveis reduzidos de audiência. Os dados quantitativos demonstram que 96,8% dos músicos consideram que os artistas emergentes não recebem tratamento equivalente ao dos consagrados; 80% identificam um cumprimento meramente formalista da Lei da Rádio; 84% caracterizam as playlists como rígidas, pouco diversas e opacas; e mais de 80% reconhecem a rádio como muito ou bastante importante para a sua viabilidade económica e simbólica, evidenciando uma relação de dependência crítica com um meio simultaneamente valorizado e percecionado como fechado. As entrevistas em profundidade reforçam este diagnóstico, sublinhando a influência das editoras multinacionais, das grandes agências e promotores, a existência de lóbis que moldam o circuito comercial, a redução dos espaços de curadoria autónoma e o peso crescente de softwares de scheduling que parametrizam decisões editoriais segundo métricas de mercado, aproximando a lógica da rádio da das plataformas digitais. A Antena 1 surge, no discurso dos entrevistados, como a estação mais alinhada com a missão de serviço público e diversidade cultural, mas limitada estruturalmente pelo seu alcance. Em convergência, as três fontes empíricas revelam que a rádio mantém centralidade simbólica e económica na carreira dos artistas portugueses, mesmo num cenário dominado por Spotify, YouTube e TikTok, reforçando o seu papel enquanto gatekeeper indispensável, mas contestado. No plano académico, a tese apresenta um corpus empírico triangulado sobre o acesso à rádio em Portugal, atualizando debates sobre estandardização, diversidade e poder editorial no contexto da curadoria algorítmica. Contribui para a literatura sobre rádio, música e políticas culturais ao integrar evolução histórica, legislação, práticas de playlisting, perceções dos músicos e testemunhos de elite, oferecendo uma leitura situada e empiricamente fundamentada do caso português. No plano propositivo, defende-se o reforço da monitorização independente das playlists pela ERC; a adoção de indicadores qualitativos de diversidade (artística, territorial, geracional e de género); a promoção de mecanismos internos de transparência nas rádios; a revalorização de programas de autor e espaços de curadoria qualificada; a criação de incentivos específicos para a difusão de novos talentos que cantam em português; e o reforço da literacia mediática e musical dos profissionais e do público. Em síntese, a tese demonstra que a rádio portuguesa continua a desempenhar um papel central na legitimação simbólica e na circulação económica da música nacional, mas fá-lo num modelo que concentra oportunidades, limita a diversidade e restringe a renovação cultural. A promoção da música portuguesa e da diversidade artística na rádio deve, por isso, ser entendida não apenas como obrigação legal, mas como responsabilidade ética, social e cultural, crucial para o futuro do ecossistema musical português.
