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- Preservação da memória na transição do rádio AM para o FM: um estudo de história oral em três comunidades brasileirasPublication . Moreira, Claudia da Consolação; Sousa, Jorge Pedro; Prata, NairEsta tese propõe uma análise da transição do rádio AM para o FM em emissoras localizadas nos municípios de Cáceres, Nortelândia e Rondonópolis, a partir de uma abordagem qualitativa e interpretativa centrada na escuta das memórias do público ouvinte, ex-funcionários e proprietários de emissoras. A partir do objetivo geral, que visa compreender como as mudanças trazidas pelo processo de transição do rádio AM para o FM constituem a memória do rádio mato-grossense, esta tese reitera a concepção de que o rádio ocupa ainda um lugar relevante na vida de muitos brasileiros, sobretudo em contextos interioranos e/ou periféricos, onde as tecnologias digitais nem sempre substituem os meios tradicionais. Para tanto, três objetivos específicos se fizeram pertinentes. O primeiro envolve a ideia de construir a memória da radiodifusão do AM local, levando em consideração as narrativas dos ouvintes (proprietários, ex-funcionários e público) das emissoras, Difusora, de Cáceres, Regional, de Nortelândia e Amorim Juventude, de Rondonópolis. O segundo busca apurar como esta transição foi vivida pelos ouvintes das emissoras. Enquanto o terceiro pretendeu averiguar as consequências que a transição do AM trouxe. Essa proposta coaduna com a premissa de que a transição AM-FM deve ser entendida como um acontecimento social com profundas repercussões no cotidiano e nas formas de comunicação comunitária, não se trata de mera modernização técnica. A investigação dialoga com os estudos da comunicação, que compreendem o rádio não apenas como tecnologia de transmissão, mas como espaço de construção de identidades, de expressão social e de pertencimento comunitário. A escuta das memórias permitiu compreender o meio como fenômeno cultural e simbólico, revelando camadas de sentido que muitas vezes escapam às análises quantitativas. O referencial teórico inclui autores como Jacques Le Goff, que discute a memória como elemento constitutivo da identidade coletiva; Paul Thompson, que defende a história oral como método legítimo para o estudo das experiências históricas; e José Carlos Sebe Bom Meihy, Verena Alberti e Ecléa Bosi, que compreendem a história oral como um campo que valoriza a escuta, a subjetividade e a memória como formas legítimas de conhecimento. Também foram mobilizados estudiosos brasileiros como Nair Prata, Nélia Del Bianco e Luiz Artur Ferraretto, cujas obras discutem a comunicação regional, o papel social do rádio e sua relevância como espaço de resistência e participação democrática. Ao adotar a metodologia da história oral como pilar principal, tanto para a coleta quanto para a análise dos dados, depreende-se que esta é uma ferramenta que possibilita acessar dimensões subjetivas e afetivas. As entrevistas tornaram possível compreender as memórias, percepções e sentimentos das pessoas que acompanharam o processo de transição do AM para o FM em Mato Grosso. A análise mostra que, embora a migração para o FM tenha trazido melhorias técnicas significativas, como maior alcance e qualidade de áudio, ela também resultou em perdas importantes em aspectos relacionados à participação comunitária, à diversidade da programação e à continuidade de práticas culturais locais. As rádios AM estudadas revelaram-se mais do que dispositivos técnicos de transmissão: funcionavam como centros de convivência, de circulação de afetos, de preservação da oralidade e de construção de laços identitários entre os moradores. Ficou nítido que, após a migração, muitos ouvintes sentiram a perda de uma conexão mais direta e afetiva com as emissoras, especialmente em relação à presença cotidiana do rádio nas rotinas familiares, à difusão de notícias locais, à promoção de eventos culturais e ao espaço dado a vozes que, de outra forma, permaneceriam à margem dos grandes meios. O rádio AM é lembrado como um agente de coesão social, um elo intergeracional e um guardião das histórias da comunidade. Importante salientar que as narrativas construídas para esta tese indicam o rádio atuando como ferramenta de resistência cultural, de preservação de memórias e de construção de sentidos pertinentes ao sentimento de pertencimento diante das dinâmicas de exclusão e uniformização midiática. Ao apresentar uma abordagem, que se pretende inovadora, sobre a transição do AM para o FM no Centro-Oeste brasileiro, região historicamente pouco contemplada em pesquisas acadêmicas sobre comunicação, os resultados poderão colaborar com estudos vindouros sobre radiodifusão. Da mesma forma, ao privilegiar as experiências subjetivas e coletivas, reafirma-se o mérito de ouvir as vozes locais na produção do conhecimento científico, pois, tal atitude promove uma visão mais ampliada e sensibilizada aos impactos sociais das transformações tecnológicas. A tese, enfim, acentua a necessidade de constituição de políticas públicas que sejam voltadas à comunicação e à radiodifusão e que levem em consideração as dimensões culturais e simbólicas. É crucial manter os vínculos comunitários e valorizar as práticas comunicacionais que sustentam a identidade e a coesão social das populações afetadas.
